“[...]. Essa moça não sabia que ela era o que era... Daí não se sentir infeliz. A única coisa que queria era viver. Não sabia para quê, não se indagava.”
O livro começa com a apresentação do narrador-personagem, Rodrigo S.M, que é quem vai conduzindo a história ao longo da narrativa, deixando a cargo do leitor ter ou não empatia pela jovem alagoana de 19 anos que vive no Rio de Janeiro, uma existência solitária e anônima, marcada pela extrema pobreza, desnutrição e a marginalização social.
Macabéa nasceu raquítica no sertão nordestino, órfã, mal se lembrava dos pais, que morreram quando ela era ainda criança. Teve uma infância sem brincadeiras e nem bonecas. Pálida, magra, sem beleza, virgem, ingênua e solitária foi criada por uma tia muito religiosa e moralista, cheia de superstições e tabus, os quais ela passou para a sobrinha.
Essa tia também tinha certo prazer mórbido em castigar Macabéa com cascudos na cabeça, muitas vezes sem motivo, além de privá-la de sua única paixão: a goiabada com queijo na sobremesa. Assim, depois de uma infância miserável, sem conforto nem amor, sem ter tido amigos nem animais de estimação, Macabéa e a tia migram para a cidade do Rio de Janeiro.
Apesar de ter estudado pouco e não saber escrever direito, Macabéa faz um curso de datilografia e consegue um emprego, no qual recebe menos que o salário-mínimo que mal dava para o sustento básico da jovem. Após a morte da tia, deixa de ir à igreja e passa a repartir um quarto de pensão com quatro balconistas, chamadas de “as quatro Marias”: Maria da Penha, Maria Aparecida, Maria José e Maria.
A garota gostava de colecionar anúncios de jornais e revistas, que colava em um álbum. Seus pequenos luxos eram pintar as unhas de vermelho, mesmo roendo-as depois, comprar uma rosa e, quando recebia o salário, ir ao cinema. Era assim que alimentava seu único sonho secreto: tornar-se uma estrela de cinema glamourosa como Marilyn Monroe.
Macabéa tinha hábitos e manias que aliviavam um pouco a solidão e o vazio de sua existência. Entretinha-se ouvindo a Rádio Relógio, aparelho emprestado de uma das Marias, que informava a hora certa, transmitia cultura inútil e propaganda, sem nenhuma música. Ela adorava anúncios e alguns ensinamentos dos quais talvez algum dia precisaria saber.
A protagonista era muito magra e pálida, pois não se alimentava direito. Basicamente vivia de cachorro-quente com Coca-Cola, que comia na hora do almoço, em pé, no balcão de uma lanchonete ou no escritório em que trabalhava. Não sabia o que era uma refeição quente.
Certo dia, o chefe de Macabéa, Raimundo, cansado do péssimo trabalho que ela executava, com textos datilografados cheios de erros de ortografia e marcas de gordura, resolve despedi-la. A reação da garota, de se desculpar pelo aborrecimento causado, acaba desarmando Raimundo, que decide mantê-la por mais um tempo.
Macabéa, por um instante, cobiçou um livro que seu patrão, Raimundo, dado a literatura, deixara sobre a mesa. O título era “Humilhados e Ofendidos”. Ficou pensativa e chegou à conclusão de que na verdade ninguém jamais a ofendera, tudo que acontecia era porque “as coisas são assim mesmo” e não havia luta possível, para que lutar?
O fato é que apesar
de não ter dinheiro para custear todas as alimentações do dia, não compreendia
que sua condição era de degradação da condição humana frente aos privilégios e
luxo que outras camadas sociais usufruíam. Não via sua trajetória de sofrimento
como consequência de uma sociedade injusta e usurpadora dos pobres, por isso
não se reconheceu como os “Humilhados e Ofendidos”.
Num dia 7 de maio, Macabéa mente dizendo que arrancaria um dente e falta ao trabalho para poder aproveitar a liberdade da solidão e fazer algo diferente. Assim que as colegas saem para trabalhar, ela coloca uma música alta, dança, toma café solúvel e até mesmo se dá ao luxo de se entediar. Agiu sem medo e sem reservas. Feliz!
“Acho que nunca fui tão contente na vida, pensou. Não devia nada a ninguém e ninguém lhe devia nada.”
Na verdade, Macabéa encontrara “uma fagulha de liberdade”, mas que não repercutiu para além daquele episódio. Encontrou-se, mas, logo, esqueceu-se de si; voltou à rotina de uma vida sem atualidade, sem trocas, sem diálogos.
É nesse dia que conhece Olímpico de Jesus, único namorado que teve.
“...no meio da chuva abundante encontrou a primeira espécie de namorado de sua vida, o coração batendo como se ela tivesse englutido um passarinho esvoaçante e preso. O rapaz e ela se olharam por entre a chuva e se reconheceram como dois nordestinos, bichos da mesma espécie que se farejam. Ele a olhara enxugando o rosto molhado com as mãos. E a moça, bastou-lhe vê-lo para torná-lo imediatamente sua goiaba-com-queijo.”
Ela nunca esqueceria que no primeiro encontro ele a chamara de “senhorinha”, ele fizera dela um alguém.
Macabéa amava Olímpico e tinha nele a esperança de um casamento feliz e com filhos. Não via a personalidade forte e errante do namorado, pois estava disposta a qualquer esforço para não decepcionar o amado.
Olímpico de Jesus também era nordestino, onde matara um homem, e havia migrado do Nordeste para o Rio de Janeiro. Desonesto e ambicioso, dormia de graça numa guarita em obras de demolição por camaradagem do vigia, roubava os colegas e almejava um dia ser deputado.
Conseguira emprego numa metalúrgica. É operário, mas se diz “metalúrgico”, o que dá delírios de grandeza em Macabéa. Afinal, ambos tinham profissão: ela era datilógrafa e ele, metalúrgico.
Enquanto ela estava no modo “deixa a vida me levar”, ele perseguia o sonho de ser aceito no “paraíso dos homens de bem”, nem que para isso precisasse agir de maneira reprovável. Não foi um namoro convencional.
O passeio dos namorados era sempre seguido de chuvas e de programas gratuitos, como sentar-se em bancos de praça para conversar, e as poucas conversas entre os namorados versavam sobre farinha, carne de sol, carne seca, rapadura, melado...
“Eles não sabiam como se passeia. Andaram sob a chuva grossa e pararam diante da vitrine de uma loja de ferrugem onde estavam expostos atrás do vidro canos, latas, parafusos grandes e pregos. E Macabéa, com medo de que o silêncio já significasse uma ruptura, disse ao recém-namorado: - Eu gosto tanto de parafuso e prego, e o senhor?”
Olímpico, representa a mediocridade e o oportunismo. Ele troca Macabéa por sua colega de trabalho — Glória. Uma troca que ele considera um progresso, já que elas eram opostas: Glória é a figura da mulher que Macabéa nunca será: desenvolta, curvilínea, cheia de pretendentes, morava numa casa confortável, tinha três refeições por dia e, o mais importante, seu pai era açougueiro; enquanto ela, Macabéa, é magra, amarelada, sem expressão nem vaidade, não sabe o gosto que tem a carne e tem sua felicidade num gole de Coca-Cola ou num pedaço de queijo com goiaba. Leva a vida sem pretensão de futuro e sem exigir nada do presente, afinal, nem sabe do que tem direito e pouco se entende enquanto “gente”.
Assim, Macabéa permanecia como estava, apática, sem indagar, uma vez que já presumia a resposta que “as coisas são como são porque assim devem ser”. Esse pensamento resume o estado de conformismo, aceitação sem luta, sem reação e, portanto, ausência na construção desse mundo.
A protagonista aceita o convite para um lanche na casa de Glória, que quer “compensar o roubo do namorado” e, mais uma vez, Macabéa, aproveita a oportunidade e come demais. Apesar de passar mal, não vomita para não desperdiçar o luxo do chocolate, mas sente remorsos por ter roubado uma rosquinha.
Aconselhada por Glória, Macabéa vai até uma cartomante chamada Madame Carlota, que impressiona a pobre moça pela “amabilidade afetada” com que a trata.
Logo após afirmar que Macabéa teve uma existência infeliz, mal conhecendo os pais e sendo criada por uma tia que agia como uma madrasta má, estas palavras levam a jovem a perceber, pela primeira vez, o quanto sua rotina de fome e solidão era trágica.
“– Macabéa! Tenho grandes notícias para lhe dar! Preste atenção, minha flor... sua vida vai mudar completamente! E digo mais: vai mudar a partir do momento em que você sair da minha casa! Você vai se sentir outra.”
Madame Carlota inventa “um futuro brilhante”. Logo Macabéa conheceria um estrangeiro louro, rico que se apaixonaria perdidamente por ela e lhe daria um futuro de cinema e muitas riquezas.
Cheia de alegria Macabéa saiu da consulta emocionada e pela primeira vez vislumbra um futuro. Contudo, ao deixar o local, tomada por uma esperança que nunca havia sentido, Macabéa se distrai ao atravessar a rua e é fatalmente atropelada por um automóvel da marca Mercedes-Benz na cor amarela.
Ao cair, Macabéa ainda teve tempo de perceber, antes que o carro fugisse, que era luxuoso e concluiu que já começava a serem cumpridas as predições de madama Carlota. Sua queda não era nada, pensou ela, apenas um empurrão.
Caída no asfalto e moribunda, ela percebeu a presença de pessoas ao redor pela primeira vez e pensou ser o primeiro dia de sua vida. Seu fim é testemunhado por inúmeros curiosos que se aglomeram em torno dela, sem que nenhum ofereça socorro, e assim tem seu rosto estampado em jornais, alcançando um falso brilho e notoriedade que nunca teve em vida.
Macabéa tem seu instante de visibilidade ironicamente denominado pela autora como “A Hora da Estrela”, isto é, só no momento da morte é que a protagonista Macabéa deixa de ser invisível às pessoas. É ali que ocorre sua "hora da estrela", o momento em que todos a enxergam e ela se sente uma estrela de cinema.
A obra expõe a indiferença da sociedade diante da pobreza extrema, simbolizada pela vida trágica, solitária e sem perspectivas da nordestina Macabéa, que não é vista pela sociedade como um ser humano, mas como um mero incômodo pelos que a rodeiam e que só ganha atenção (sua hora da estrela) após ser atropelada e agonizar na rua, o que escancara a crueldade de uma sociedade que só valida o pobre na tragédia.
Clarice termina sua
obra expressando seu incômodo sobre a morte, convidando o leitor a pensar em
como tudo é um instante — instante de tragédia, de dor, de tristeza, de perda.
“E agora — agora só me resta acender um cigarro e ir para casa. Meu Deus, só agora me lembrei que a gente morre. Mas — mas eu também?! Sim. Não esquecer que por enquanto é tempo de morangos. É tempo de colheita. De recomeços. De frutos.”
Esta última frase de Clarice Lispector: "Não esquecer que por enquanto é tempo de morangos", dita pelo narrador Rodrigo S. M., logo após o atropelamento e a morte trágica da protagonista Macabéa, simboliza a esperança, a doçura e a renovação da vida que continuam a existir apesar da dor e da morte, portanto, é preciso aproveitar o presente antes que ele acabe, já que o tempo de desfrutar é limitado e, por enquanto, podemos colher alguma coisa boa do agora.
Pode-se dizer que a obra é uma reflexão sobre a existência humana, a dura realidade da pobreza, a distância entre classes sociais, a invisibilidade das pessoas marginalizadas, e a busca de sentido na vida através da história de Macabéa, uma jovem nordestina, marginalizada e aparentemente insignificante, a qual Lispector torna eterna através da escrita.
É uma espécie de grito por aqueles “esquecidos” por toda uma sociedade com os quais cada um de nós, em algum momento, se identificará, afinal, essa é a intenção principal da autora: fazer-nos refletir sobre nossa própria existência.
“Se o leitor possui alguma riqueza e vida bem acomodada, sairá de si para ver como é às vezes o outro. Se é pobre, não estará me lendo porque ler-me é supérfluo para quem tem uma leve fome permanente... Bem sei que é assustador sair de si mesmo, mas tudo o que é novo assusta. Embora a moça anônima da história seja tão antiga que podia ser uma figura bíblica. Ela era subterrânea e nunca tinha tido floração. Minto: ela era capim”.
► SOBRE A AUTORA
Haia Pinkhasovna Lispector, que viria a ser “Clarice
Lispector”, um dos maiores nomes da literatura brasileira do século 20, nasceu
em 10 de dezembro de 1920, na pequena aldeia de Tchetchelnik (Ucrânia).
Sua família partiu rumo à América três anos após a Revolução Russa, em 1917, devido aos conflitos, à miséria e à perseguição antissemita sofrida no país. Ao chegarem no Brasil, em 1922, os Lispector adotaram novos nomes e viveram por algum tempo em Maceió, no Alagoas, e depois, em 1925, fixaram residência em Pernambuco, no Recife.
Cursou Direito, no Rio de Janeiro, onde no começo da
juventude, trabalhou como professora particular e tradutora até assumir uma
vaga de redatora e repórter na Agência Nacional, que marca o começo da carreira
de Clarice no jornalismo.
Em 1943, Lispector casa-se com o diplomata Maury Gurgel Valente e, no ano seguinte, lança seu primeiro romance, Perto do Coração Selvagem, que logo chama atenção da crítica literária e conquista o prêmio de melhor romance da Fundação Graça Aranha.
Junto a Maury, Clarice viveu em muitos países — Itália, Inglaterra, Suíça e Estados Unidos —, refletindo seus sentimentos e experiências na sua escrita. Separa-se de seu marido em 1959 e volta para o Rio de Janeiro com seus dois filhos, e passa a trabalhar como colunista do Correio Feminino no jornal carioca Correio da Manhã. Destaca-se, em 1967, pela publicação de suas crônicas no Jornal do Brasil. No ano seguinte, publica seu primeiro livro de contos, Laços de família.
Publica em 1977 seu último livro, A Hora da Estrela, vindo a ser internada pouco tempo depois com câncer. A escritora vem a falecer no dia 9 de dezembro do mesmo ano, véspera de seu aniversário de 57 anos.
A obra literária de Clarice Lispector é formada por contos, crônicas, romances, cartas, literatura infantil e traduções de grandes clássicos, como obras de Agatha Christie, Anne Rice, Oscar Wilde e Edgar Allan Poe. Algumas de suas obras mais aclamadas são os romances A Paixão Segundo G.H. (1964) e A Hora da Estrela (1977), e os livros de contos Laços de Família (1960) e A Legião Estrangeira (1964).
No ano seguinte,1978, A Hora da Estrela recebeu o Prêmio Jabuti na categoria melhor romance; e foi publicado, com a ajuda de Olga Borelli, secretária de Clarice, seu último romance em que Clarice estava trabalhando, Um Sopro de Vida – Pulsações, escrito entre 1974 e 1977.
A Hora da Estrela também ganhou uma série de premiações em festivais de cinema, entre eles: O Festival de Cinema de Brasília (1985), em que o filme ganhou 11 prêmios: Melhor filme, Melhor direção, Melhor roteiro, Melhor montagem, Melhor fotografia, Melhor cenografia, Melhor trilha sonora, Melhor filme do júri popular, Prêmio especial da crítica e ainda Melhor ator para José Dumont (Olímpico) e Melhor atriz para Marcélia Cartaxo (Macabéa).
O livro de Clarice também recebeu várias adaptações para o teatro! Em 2020, ganhou sua versão musical no espetáculo A Hora da Estrela ou O Canto de Macabéa.
A Hora da Estrela — Edição comemorativa
Autora: Clarice Lispector
Edição: 1ª
Editora: Rocco
Capa: Visual Victor Burton — baseado em
pinturas de Clarice Lispector
Posfácio: Paulo Gurgel Valente.
Preço: Capa comum:R$ 29,00 Capa Dura: R$ 45,43 Kindle: R$ 28,40 Audiolivro: R$ 17,59
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nordestina, magra, ingênua, solitária, cartomante, tempo de morangos, morte.
