
Diferente do original, substitui a obediência de Chapeuzinho pela livre escolha de Fita-Verde ao tomar o caminho mais longo, ao invés de seguir o outro, o encutoso.
Entre outros, nos mostra também, um lobo ausente, exterminado pelos lenhadores e, que se manifesta no final da história, simbolizando o medo, quando Fita-Verde se vê sem sua fita verde e sem a avó e é obrigada a enfrentar seus medos, angústias, solidão e o sentimento de culpa, por ter chegado tarde demais à casa de sua avó.
Pode-se dizer ainda que as metáforas do texto desencadeiam uma vasta rede de leituras possíveis que atingem qualquer tipo de leitor, não importando a época.
Assim, é possível dizer que a fita da cor verde, por si só revela um mundo de significações, como: pode indicar não maduro no que se refere às coisas da natureza; é também, uma cor que indica um novo ciclo que se inicia; por convenção universal, verde está ligada à cor da esperança; e, neste conto, pode-se relacionar a cor verde ao desabrochar da menina para a vida e que ao perdê-la no caminho, depara com a dolorosa passagem e transformação da infância para a adolescência.
Neste conto, Guimarães Rosa, não só nos
surpreende e encanta, pela alegria e
êxtase da protagonista diante da exuberância da natureza no novo caminho
louco e longo, por ela mesma
escolhido — o que não acontece em Chapeuzinho que segue o caminho indicado pela mãe
— como também, por
abordar temas como a morte que faz com que a protagonista do conto acorde para
a realidade da morte e para uma tomada de consciência.
O conto Fita Verde no Cabelo: Nova Velha Estória, circulou pela primeira vez, no jornal
O Estado de S. Paulo, no dia 8 de fevereiro de 1964, onde o leitor, que não era
criança, a quem habitualmente os contos de fadas se dirigem — representava um leitor adulto, envolvido num
contexto político conturbado, que, provavelmente,
provocou estranhamento, já que não era comum em jornais a presença de textos
regidos pelo tradicional ... Era
uma vez … .
Nesse caso, o leitor, possivelmente teve, em
primeiro lugar, que se desvencilhar de
preconceitos literários de que adulto
não lê histórias para crianças, e, em segundo, operar a relação das
imagens do conto com a dos outros textos do mesmo jornal.
Fita Verde no Cabelo – Nova Velha Estória,
conto de Guimarães Rosa, primeiro foi publicado no livro Ave, Palavra, mas foi em 1992, vinte e oito anos após a
publicação de Fita Verde no Cabelo no jornal O Estado de S. Paulo, que
ganhou uma edição própria da editora Nova Fronteira e com ilustrações de Roger Mello.
Pode-se destacar dois momentos importantes
para o entendimento da estória. O primeiro momento ocorre na apresentação do espaço físico e
psicológico da aldeia , que nos dá um retrato dos moradores do lugar, por meio de
verbos no pretérito imperfeito.
"Havia uma aldeia em algum lugar, nem maior nem menor, com velhos
e velhas que velhavam, homens e mulheres que esperavam, e meninos e meninas que
cresciam."
Assim,
enquanto os velhos velhavam, os adultos aguardavam o momento de também, a
exemplo dos mais velhos, velhar. A atitude é de intensa passividade,
não se manifestando nenhum traço de rebeldia, mas, pura e simplesmente, de
aceitação incontestável.
As
crianças, por sua vez, é que aparecem dotadas de movimento, posto que nasciam e
cresciam e ainda não tinham sido neutralizados pela ação do tempo.
É
o mito do eterno retorno surgindo no ciclo vital com a infância, a ingenuidade
e a inocência caracterizadas, essencialmente, na personagem da meninazinha de
fita verde no cabelo, o que nos leva a dizer que nesse
conto, a velhice não traz experiência, pois velhos e velhas apenas “velhavam”.
O leitor, mais atento, vai observar uma
mudança no ritmo da narrativa, quando a menina, num impulso criativo — o que
não é comum no conto de fadas tradicional — após ser solicitada pela mãe a ir
visitar a avó, muda de caminho.
No segundo momento, o narrador ao apresentar o caminho e a
paisagem, em forma de imagens, rouba a
cena da protagonista e, nesse momento, ver
se torna o foco do conto, no qual a natureza contemplada parece estar em
êxtase, como a própria natureza da menina na estória.
"Saiu, atrás de suas asas ligeiras, sua
sombra também vindo-lhe correndo, em pós. Divertia-se com ver as avelãs do chão
não voarem, com inalcançar essas borboletas nunca em buquê nem em botão, e com
ignorar se cada uma em seu lugar as plebeinhas flores, princesinhas e incomuns,
quando a gente tanto por elas passa. Vinha sobejadamente."
O autor traz uma jovem que se auto apresenta
como pronta, que ao passar desapercebida no bosque, vai anunciando pelo caminho
que é enviada pela mãe à casa da avó, em um lugar distante, para levar mantimentos
e que leva consigo cesto, pote e fita verde no cabelo.
Contudo,
o pote continha um doce em calda, e o cesto estava vazio, para buscar
framboesas, portanto, as framboesas podem representar as experiências colhidas
ao longo do percurso da vida. Atravessando o bosque, viu só lenhadores que por
lá lenhavam e nenhum lobo, pois os lenhadores o tinham exterminado, desse modo,
a menina podia seguir tranquilamente à casa da vovó que a estava esperando
acolá, depois daquele moinho.
...Ela mesma resolveu
escolher tomar esse caminho de cá, louco e longo, e não o outro, encurtoso ...
O encanto da viagem cede lugar ao
desencanto, quando Fita-Verde chega à casa da avó e a encontra fraca e
moribunda, faz com que acorde para a realidade da morte e para uma tomada de
consciência, o que nos leva a pensar sobre o fluxo e o refluxo da vida.
O
ponto culminante deste conto fica por conta do final onde Guimarães Rosa cria
um sentido dúbio do que aconteceu, realmente,
com a velhinha.
A morte da avó é apresentada como uma
experiência de vida que irrompe para a menina em sua simbólica viagem e que
sugere o processo de iniciação e de autoconhecimento, pela consciência da perda
do primeiro adorno da cabeça, a fita — bem material e simbólico e, pela perda
da avó, bem humano e insubstituível, fazendo com que o sentimento do medo, pela primeira vez, leve a menina a um outro plano de suas
percepções.
Assim, pode-se dizer que, quando a avó ouve o chamado da neta e diz: – Puxa o ferrolho de pau da porta, entra
e abre. Deus te abençoe.,
sugere-nos a abertura
e a entrada da menina em outro mundo, do qual ela sairá transformada.
A
avó estava na cama e pela primeira vez na vida, Fita-Verde deparou-se com a imagem
da velhice escancarada, que se opunha ao desabrochar que estava vivendo.
Podemos
dizer que Fita Verde na Cabeça de Guimarães Rosa, mantém o aspecto
corporal, porém, diferencia do conto
original, quando fala do abraço; a lástima pelo fato não poder ver mais; e,
sobretudo, o beijo: os lábios para beijar estão no lugar dos dentes para comer
e, por outro lado, a reação da menina , aqui, é outra: sua perplexidade não é
com o tamanho (como são
grandes), dos braços,
pernas, orelhas, olhos e dentes da avó-lobo do conto de Perrault, mas a neta
foca os vários elementos corporais que indiciam o fim:
→os braços são magros que não vão poder nunca mais abraçá-la;
→os braços são magros que não vão poder nunca mais abraçá-la;
→os
olhos, fundos e parados que já não conseguem vê-la;
→os
lábios são arroxeados que não mais poderia beijá-la;
→a
extensão das mãos tão trementes.
Enfim, todos apontando para a perda definitiva imposta pela morte: já não, nunca mais.
Enfim, todos apontando para a perda definitiva imposta pela morte: já não, nunca mais.
A
resposta da avó se dá numa dicção cada vez mais frágil, numa gradação, ela
murmurou, suspirou e gemeu. ... Fita-Verde mais se assustou, como se fosse ter juízo pela primeira
vez ... e seu
desolamento é tamanho que a faz gritar num último apelo à avó: – Vovozinha, eu tenho medo do Lobo!
Ao
final, sem a presença da avó, sem sua fita verde e com medo do lobo, Fita-Verde
precisará fazer a viagem de volta sozinha e enfrentar seus medos; descobrir seus
próprios mecanismos de defesa contra o lobo que lhe causa pavor; recriar seus
conceitos; descobrir-se capaz de ser ela
mesma, ascendendo assim a um novo estágio de vida.
Fita Verde no Cabelo — Nova Velha Estória
Autor:
João Guimarães Rosa
Editora:
Nova Fronteira, RJ
Ilustrações:
Roger Mello
Edição:
13ª, 1992
Preço: De R$15,90 a R$22,90
Livros Pra Ler e Reler
Tags:
Fita verde no cabelo, fita verde, cabelo, lobo,avó, menina, braços, boca, olhos, chapeuzinho vermelho, medo, bosque, caminho, lenhador.
"Quando escrevo, repito o que já vivi antes.
E para estas duas vidas, um léxico só não é suficiente.
Em outras palavras, gostaria de ser um crocodilo
vivendo no rio São Francisco. Gostaria de ser
um crocodilo porque amo os grandes rios,
pois são profundos como a alma de um homem.
Na superfície são muito vivazes e claros,
mas nas profundezas são tranqüilos e escuros
como o sofrimento dos homens."
João Guimarães Rosa