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O Homem que Calculava — Malba Tahan

O Homem que Calculava escrito pelo brasileiro Malba Tahan — heterônimo do professor Júlio César de Mello e Souza, carioca e engenheiro civil — narra as aventuras e proezas matemáticas do calculista persa Beremiz Samir, personagem central de eventos que se desenrolaram na Bagdá do século XIII, cujas peripécias se tornaram lendárias e encantaram reis, poetas, xeques e sábios.

Sucesso de vendas no Brasil, foi publicado pela primeira vez em 1939 e reeditado várias vezes - já chegou a sua 75ª edição. Lido por várias gerações, o livro, foi também traduzido para o espanhol, o inglês, o italiano, o alemão, o francês e o catalão.

Sob a forma de romance o livro apresenta alguns problemas dentro da paisagem do mundo islâmico medieval, resolve e explica diversos problemas, quebra-cabeças e a história da matemática e, inclui, ainda, lendas e histórias pitorescas, como, por exemplo, a lenda da origem do jogo de xadrez e a história da filósofa e matemática Hipátia de Alexandria e, ao longo de sua obra, o autor, por ser um grande estudioso da cultura islã, faz sempre referências à essa cultura no livro, dando uma real impressão de que tudo ocorreu mesmo entre beduínos do deserto, xeques, vizires, magos, princesas e sultões.

O Homem que Calculava nasceu em uma pequena aldeia de Khói, na Pérsia, onde muito jovem, pastoreava um grande rebanho de ovelhas e ao recolhê-las ao abrigo, no final do dia, contava-as várias vezes com receio de ser castigado por negligência.

Aos poucos, foi desenvolvendo sua habilidade para contar, tanto que num relance calculava sem errar o rebanho inteiro e, assim, começou a exercitar contando pássaros, formigas, pequenos insetos, folhas de árvores, chegando à proeza de contar todas as abelhas de um enxame. Após trabalhar durante anos, usando seus dons matemáticos, como responsável pelas plantações e as vendas dos frutos, seu patrão lhe deu férias por quatro meses.

Beremiz decidiu partir para a cidade de Bagdá e a caminho, durante uma de suas paradas para exercitar seus cálculos, conhece Hank Tade-Maiá — narrador da história — um bagdali que voltava, em seu camelo, de uma excursão à famosa cidade de Samarra, nas margens do Tigre.

Samir conta-lhe sua história e Hank impressionado com suas grandes habilidades matemáticas, convenceu-o de que esta habilidade poderia proporcionar, a qualquer pessoa, um meio seguro de ganhar riquezas invejáveis na capital ou mesmo Bagdá, e, assim, o jovem Beremiz Samir, decidiu acompanhar Hank até Bagdá e sem mais preâmbulos, acomodou-se como pode em cima do único camelo que possuiam rumo à gloriosa cidade e, a partir deste encontro casual, tornaram-se companheiros e amigos inseparáveis.

Durante a viagem pelo deserto Beremiz ia se exercitando contando pássaros, galhos e folhas das árvores e quando deparava com diferentes problemas ou conflitos matemáticos vivenciados pelos viajantes que cruzavam e que aparentemente sem solução, Beremiz, com sua grande capacidade de raciocínio lógico os resolve de forma simples e transparente, explicando aos seus observadores como chegou a tais conclusões, e, em algumas situações, recebe alguma recompensa, porém, em outras, se livra de situações complicadas e potencialmente perigosas.

Uma das histórias narradas no livro é A Aventura dos 35 camelos — hoje muito conhecida — no qual Beremiz consegue resolver o caso dos camelos que deveriam ser divididos entre três irmãos de acordo com a vontade do pai. O mais velho deveria receber a metade, o do meio uma terça parte e o mais novo ficaria com a nona parte.

Acrescentando um camelo — o camelo do amigo — aos 35 da herança, Beremiz consegue dividir os camelos entre os três irmãos de modo que o mais velho ficou com 18, o do meio ficou com 12 e o mais novo com 4 dando a soma da herança 34 camelos. Sobraram 2 camelos — o camelo do amigo e mais 1 que ele saiu lucrando pela resolução da questão.

Destacamos ainda um outro problema interessante, como O Caso dos 21 vasos que deveriam ser divididos entre três sócios:
Como pagamento de pequeno lote de carneiros, receberam em Bagdá, uma partida de vinho, muito fino, composta de 21 vasos iguais, sendo: 7 cheios; 7 meio-cheios e 7 vazios.

Eles queriam dividir os 21 vasos de modo que cada um deles recebesse o mesmo número de vasos e a mesma porção de vinho. Repartir os vasos era fácil, cada um dos sócios ficaria com sete vasos, a dificuldade estava em repartir o vinho sem abrir os vasos, conservando-os exatamente como estavam.

Beremiz indicou a solução que parecia bem simples :
→ Ao primeiro caberão 3 vasos cheios, 1 meio-cheio e 3 vazios;
→ Ao segundo sócio caberão: 2 vasos cheios, 3 meio-cheios e 2 vazios;
→ Ao terceiro sócio a cota será igual à do segundo, isto é 2 vasos cheios; 3 meio-cheios; 2 vazios.
Cada sócio então recebeu a mesma quantidade de vasos e a mesma porção de vinho.

Vale a pena ressaltar ainda O Problema dos Quatro que consiste em formar expressões aritméticas utilizando apenas quatro algarismos 4, equivalentes, cada um, aos números inteiros.

Segundo o autor, é possível formar todos os números inteiros entre 0 e 100, utilizando, além dos números, quaisquer sinais e operações matemáticas, sem envolver letras ou inventar funções apenas para resolver o problema. Entusiastas têm resolvido o problema para mesmo além dos 10.000 primeiros inteiros.

→ 44-44 = 0
→ 44/44 = 1
→ 4/4+4/4 = 2
→ 4x4=16+4=20/4=5
→ 44/4=11-4=7
→ 4+4+4=12-4=8
→ 4+4=8+4/4= 9
→ 44-4/4=10

Quer saber mais sobre a resolução deste problema e outros… não deixe para amanhã o que pode fazer hoje, portanto, mate sua curiosidade e comece a ler O Homem que Calculava, hoje!

Em Bagdá, Beremiz rapidamente tornou-se famoso e muito requisitado tanto por pessoas comuns quanto por nobres, despertou a simpatia de uns e a inveja de outros. Empregou-se como secretário do Grão-vizir Ibrahim Maluf, enquanto que Tade-Maiá assumiu como escriba deste mesmo ministro. Beremiz aceitou também a tarefa de ensinar matemática à filha do poeta Iezid, travando conhecimento com Telassim, sua futura esposa.

Califa ouvia falar de Beremiz e concedeu-lhe uma audiência na qual ficou encantado com a argúcia do calculista e, visando testar definitivamente a capacidade de Beremiz, prepara uma audiência onde o calculista seria argüido por sete sábios.

Tendo respondido brilhantemente todas as provas, Beremiz, como recompensa, pede em casamento a mão de Telassim, por quem havia se apaixonado e, o rei, após conferência com o xeique Iezid aceita que Beremiz se case com Telassim, desde que este resolva um problema criado por um dervixe — religioso mulçumano— do Cairo que consistia na seguinte questão:

O rei possuía cinco escravas, duas tinham os olhos negros e as três restantes tinham os olhos azuis. As duas escravas de olhos negros, quando interrogadas, diziam sempre a verdade, enquanto as de olhos azuis sempre mentiam.

Beremiz poderia interrogar três das escravas, que estariam com o rosto totalmente coberto, mas poderia fazer apenas uma única pergunta a cada uma delas, para então descobrir a cor dos olhos de cada escrava.

Samir usando de astúcia e lógica, pergunta à primeira escrava de que cor eram os olhos dela, mas esta responde em um dialeto desconhecido e Beremiz perde a resposta da primeira escrava.

Sem se abalar, o calculista seguiu para a segunda escrava e perguntou qual foi a resposta que a primeira escrava tinha proferido. A segunda escrava declara que resposta foi: Os meus olhos são azuis.

À terceira escrava o calculista pergunta qual era a cor dos olhos das duas primeiras. Ela responde que a primeira tinha olhos negros e a segunda tinha olhos azuis.

Assim o calculista descobriu a cor dos olhos das cinco escravas: a primeira tinha os olhos negros, a segunda tinha os olhos azuis, a terceira tinha os olhos negros e as duas últimas tinham os olhos azuis.

Como Beremiz chegou a esta conclusão?
Esta e outras respostas você encontrará em O Homem que Calculava que é um prato cheio para os aficcionados dos algarismos e jogos matemáticos que certamente se deleitarão, em cada capítulo, de como Bereniz Samir resolvia problemas aparentemente sem solução, utilizando apenas sua habilidade em trabalhar com os números com a facilidade de um ilusionista.

O Homem que Calculava carrega o leitor, não só pelos elementos criativos na trama, mas, principalmente, pela força, malabarismo mental e sabedoria do personagem Malba Tahan para encontrar soluções em situações cotidianas para diferentes pessoas: do mais simples mercador a reis, teólogo, cientista, historiador, poeta..., e, paralelamente, também dar informações sobre Geografia, História e cultura oriental, Filosofia, Arte, Língua Portuguesa e pensamentos de filósofos que são adicionados ao texto no sentido de conduzir o leitor à busca da sabedoria e a uma maior compreensão da própria vida.

O livro inclui diversos apêndices como glossário de árabe, frases de filósofos e cientistas elogiando a matemática, informações sobre calculistas famosos, um artigo sobre os árabes na matemática, a dedicatória que tem importante significado histórico e cultural e a resolução explicada de cada problema matemático. Todos os problemas encontrados, são de resolução não-mecânica, sem fórmulas, obrigando ao leitor a pensar sobre o problema para resolvê-lo.

Pode-se dizer que o uso da Matemática nos possibilita desenvolver e/ou adquirir o hábito de raciocinar e, uma vez aprendido, pode ser empregado na pesquisa da verdade e assim facilitar nosso dia-a-dia. Na verdade, a Matemática é imprescindível e está dentro e em volta de todos nós e em tudo o que acontece em nosso planeta.

Todos nós — consciente ou inconscientemente — aplicamos os princípios básicos da matemática em nossas vidas, seja na escola, no lar, no trabalho, nas pesquisas, no cultivo, na natureza, nas pequenas coisas de nosso dia desde um simples diálogo até defendendo uma tese e, caso você não se lembre, o número 1 foi um dos nossos primeiros contatos com a matemática, lembra!
— Quantos aninhos você tem? E você matematicamente respondia com orgulho — mostrando um dedinho — um!

Quer mais? Seus primeiros passos! Seu primeiro Não! Seu primeiro dentinho! Contar de 1 ao 10! Decorar sua primeira tabuada! Sua primeira declaraçao de amor! Seu primeiro beijo! Sua primeira equação! Seu primeiro pedido: Primeira estrela que vejo atende meu desejo ... enfim, teve um monte de primeiros, segundos, terceiros, vigésimos... que continuarão existindo e você os contará quantas vezes forem necessários, pois como dizia Beremiz Samir: Conto os versos de um poema, calculo a altura de uma estrela, avalio o número de franjas, meço a área de um país, ou a força de uma torrente ... enfim, a Matemática existe, por toda a parte, porém, é preciso olhos para vê-la, inteligência para compreendê-la e alma para admirá-la…

O homem que calculava é um livro recheado de informações, histórias e curiosidades sobre a matemática e vale a pena ser lido e relido por todos, sem exceção, sejam profissionais, comerciantes, estudantes, donas de casa, para quem trabalha em comércio, ou seja, para todos nós.

É uma história onde o fascínio dos números é desvendado e a tentativa do leitor de solucionar cada problema é inevitável, portanto imperdível para todos aqueles que buscam conhecer um pouco mais da história da matemática e querem enxergar as coisas de forma mais precisa e objetiva e, de quebra, entender um pouco mais dos hábitos e costumes dos árabes.


A Matemática apresenta invenções tão sutis que poderão servir não só para satisfazer os curiosos como, também para auxiliar as artes e poupar trabalho aos homens. — Descartes


Conheça um pouco mais sobre Malba Tahan

Malba Tahan é o pseudônimo de Júlio César de Mello e Souza, carioca, professor, educador, pedagogo, engenheiro civil, escritor e conferencista brasileiro nascido em 1895, na cidade do Rio de Janeiro e que passou sua infância em Queluz, no interior de SP.

Exímio contador de histórias, aos 9 anos de idade, já editava uma revista, feita manualmente e distribuída entre os amigos e colegas de escola e, mais tarde, passou a vender redações para os alunos de um exigente professor de literatura.

Contra a vontade da família, que queria vê-lo envergando a farda militar, Júlio César se formou em Engenharia Civil— profissão que nunca chegou a exercer— e tornou-se professor de História, Geografia e Física antes de, finalmente, chegar à Matemática, matéria pela qual se apaixonou e que mudou radicalmente a sua vida.

A idéia de criar um pseudônimo nasceu quando o escritor tinha 23 anos e era colaborador de um jornal carioca onde entregou alguns de seus contos ao editor, porém, ao perceber que jamais os publicariam, retirou-os para depois reapresentá-los — assinados por Slade, um fictício escritor Americano — dizendo ao editor que tinha acabado de traduzi-los por que estavam fazendo sucesso em Nova York. No dia seguinte o primeiro conto foi publicado na primeira página e, posteriormente, os outros tiveram o mesmo destaque, e, assim, nascia Malba Tahan , um autor que, durante décadas, milhões de leitores julgavam ser árabe.

Publicou ao longo de sua vida cerca de 120 livros sobre Matemática Recreativa, Didática da Matemática, História da Matemática e Literatura infanto-juvenil, atingindo tiragem de mais de 2 milhões de exemplares.

Sua obra mais popular, O Homem que Calculava — 75 edições — foi premiada pela Academia Brasileira de Letras, em sua 25ª edição, em 1972. Sua importância na história da literatura e da educação brasileira é incontestável tendo sido lido, aclamado e reconhecido por gerações inteiras durante os últimos 70 anos. Em 1952, o presidente da República publicou um decreto oficial que permitiu ao cidadão Júlio César de Mello e Souza o uso legal do pseudônimo Malba Tahan.

Júlio César criou para esse personagem-pseudônimo — Malba Tahan — uma biografia fictícia, segundo a qual teria nascido em 1885 na aldeia de Muzalit, Península Arábica, perto da cidade de Meca, um dos lugares santos da religião muçulmana, o islamismo. Foi prefeito da cidade árabe de El-Medina, estudou no Cairo e em Constantinopla e, aos 27 anos, recebeu uma grande herança do pai, iniciando uma longa viagem pelo Japão, Rússia, Índia e teria morrido, em 1921, lutando pela libertação de uma tribo na Arábia Central.

Para sustentar a sua criação, estudou profundamente o Alcorão, a língua, os costumes e as tradições árabes, em especial a milenar tradição dos contadores de histórias, e se valia de gravuras, mapas e fotografias para localizar e descrever as suas ambientações e, o fez com tal perfeição que durante décadas jamais se suspeitou que as fantásticas histórias de Malba Tahan eram escritas por um humilde professor brasileiro que jamais colocara os pés num país árabe.

Como professor de matemática, Malba Tahan era um inconformado com os métodos de ensino da época, que considerava ultrapassados. Começou, então, a desenvolver as suas aulas através de jogos, desafios, brincadeiras e... histórias. Por isso, é considerado um precursor dos métodos de ensino lúdico-didáticos e da popularização da matemática.

Professor Emérito da Faculdade Nacional de Arquitetura, do Instituto de Educação do Distrito Federal, docente por concurso do Colégio D. Pedro II, catedrático na escola Nacional de Belas Artes e catedrático no Instituto de Educação do RJ — ex Escola Normal do RJ, Julio César de Mello e Souza morreu na cidade do Recife, aos 79 anos — 17/05/1974 — após uma conferência sobre a arte de contar histórias.


O Homem que Calculava
Autor: Malba Tahan
Editora: Record
Gênero: Romance
Assunto:Literatura Juvenil
Preço: De R$ 20,90 até R$ 34,90
Livros Pra Ler e Reler